Flor a Flora - Capítulo 9

 

Felipe Caprini

FLOR A FLORA

Segundo conto da Série Urdidura das Feiticeiras




Capítulo 9
"Lavagem Cerebral"

🌹- I
Salaí abriu os olhos, tinha o corpo suado e os olhos muito molhados. Sem perceber havia adormecido sentado em uma cadeira na varanda de Doralice.
Olhando para o quintal viu todas as pombagiras lá aguardando um sinal de Henrique. Por mais que ele possuísse o dom de ver espíritos desde o nascimento, ainda assim ficava perplexo ao ver todas   aquelas entidades juntas.
Henrique partira logo após a sua dramática incorporação e mudança física, simplesmente correu para fora do quintal com tamanhoa velocidade que não foi possível acompanhar.
Salaí temia que Henrique havia desaparecido para sempre, porém as demais pomba giras estavam todas ali sentadas no chão com suas saias abertas em leque em volta de si mesmas, e em qualquer outro momento aquela cena seria linda e deveria de ser eternizada em uma pintura, mas naquele momento de apreensão Salaí só conseguia pensar se Henrique estava bem.

— Com o que foi que você sonhou, meu bem?

Ele ergueu a cabeça e viu Doralice bem ao seu lado com uma xícara de café ao qual lhe ofereceu com o seu costumeiro sorriso.
— A senhora sempre sabe quando eu estou sonhando não é? Bom, na verdade me sinto culpado de ter adormecido aqui...
— Você está em fase de crescimento e precisa dormir, não se preocupe.
— Fase de crescimento? Eu estou beirando os 30 anos tia Doralice...
— Mas ainda parece um menino. Não vai dizer como foi seu sonho? É algum segredo?
— Não, não tenho muita certeza se foi um sonho profético, na verdade eu vi Henrique no meu sonho e ele me dizia que iria se mudar para o... Ranamate. Mas eu não sabia que ele tinha planos de ir ao Japão.
— você disse Hanamachi?
— Sim.
— Isso não fica no Japão e sim em São Paulo, minha prima tinha um imóvel lá se não me engano, bom eu sei que tinha pois quando decretamos o "desaparecimento" dela Henrique e Belladonna receberam toda a herança registrada e eu me lembro de um terreno em um bairro chamado Hanamachi na zona norte da capital de São Paulo.
— Herança de Sarana?
— Isso. — Doracile ajeitou a gola da camisa de Salaí.
— Que estranho um bairro em São Paulo com o nome japonês.
— É um bairro japonês em São Paulo, a capital paulista é o lugar onde existem mais japoneses fora do Japão, se eu não me engano no último censo contabilizaram uns trezentos mil imigrantes, os japoneses mais ricos moram num bairro no centro da cidade chamado Liberdade e os mais pobres moram no Hanamachi que é um bairro no extremo da zona norte e basicamente um brejo.
— Então o meu sonho estava certo, após tudo isso acabar Henrique vai morar neste tal de Hanamachi.
— Você lembra que os seus sonhos são previsões e não sentenças, qualquer situação vinda neles pode ser modificada.

— Doralice eu acho que ela já chegou lá.— disse Sete saias olhando em direção a varanda e ficando em pé.
— Ela? Desde quando o Henrique é uma mulher?— perguntou Salaí.

🌹- II
Henrique experimentava Sensações incompreensíveis, se via em pé em uma sala escura cujo o único ponto de iluminação estava sobre si mesmo portanto se esticasse os braços e olhasse as mãos conseguia vê-las reluzindo em luz branca porém tudo em volta era negro, e mesmo ali parado em pé ele sentia um tipo de movimentação estranha nos músculos das pernas, sentia também sensação de frio no rosto e nos ombros, os dedos das mãos um pouco dormentes como se os estivesse sacudindo porém estava parado.
— Cacetada...

Henrique suspirou fundo e percebeu que aquilo que estava vendo era simplesmente dentro de sua própria mente porém aquela sensação que sentia no corpo era real pois Provavelmente o seu corpo estava correndo sendo dominado por aquelas sete entidades ele havia incorporado momentos antes.
Pensou estar observando o próprio subconsciente, se lembrou que todas as outras vezes que havia incorporado Cigana Sarah ele não se lembrava de coisa alguma pois era como se estivesse caindo em um sono profundo onde acordava apenas no final da possessão, porém o que estava sentindo naquele momento era totalmente diferente e logo percebeu que não estava dentro de seu próprio subconsciente e sim compartilhando a mente junto com as moças que possuíam seu corpo.

Percebeu isso quando ao norte da sala uma luz brilhou, foi aí que ele se deu conta da imensidão daquele espaço pois até chegaram naquela luz ele teve que caminhar muito, mas quando chegou lá observou um curioso cenário, havia uma mesa de mogno vermelho de modelo antigo, rococó, em cima dela uma caixa de madeira cheia de moedas douradas cunhadas com o rosto de um homem velho, em cima da mesa também estava um grosso caderno de folhas amareladas, uma pena de escrever e um tinteiro, o mais curioso era o ábaco que se posicionava no canto da mesa.
Henrique olhou aquilo com curiosidade e se espantou mais ainda quando logo atrás da mesa uma cadeira de espaldar alto e estofado de veludo vermelho surgiu aparecendo do nada, ele deu um passo para frente e logo o seu corpo foi tomado por uma rigidez absurda e ele sem poder controlar a si mesmo caminho e se sentou, então observou as suas mãos movendo as páginas do caderno sobre a mesa e também com grande espanto percebeu unhas Compridas pintadas de preto surgirem na ponta de seus dedos.
Agarrou a pena e molhou a ponta no tinteiro e em seguida escreveu em uma folha em branco

"morena, três atendimentos, dois nível um e um nível três, quatorze moedas mais doze moedas."

Então ele retirou o exato número de moedas da caixa e abrindo uma gaveta logo abaixo da mesa apanhou um saquinho de couro entre muitos onde o nome Morena estava gravado e colocou ali dentro as moedas referentes, espantado ele observou as próprias mãos se tornarem mais femininas com ossos menos marcados e o tom da pele leitoso, os dedos finos mexeram nas peças do Ábaco fazendo algum tipo de cálculo e em seguida novamente voltou a abrir o caderno e tratando um risco abaixo do nome morena escreveu:

"Menina Ellen, oito atendimentos nível três, receberá noventa e seis moedas de ouro porem deve-se deduzir o valor da cortina queimada no quarto onze cujo a responsabilidade foi assumida por ela o que a faz perder quatro moedas recebendo no total noventa e duas moedas na semana".

Henrique sentiu um incômodo no ombro, dor por tensão nas costas,
então sua mão correu para uma outra gaveta da qual abriu e retirou um espelho de moldura Dourada e se mirando ele viu que no reflexo do espelho não era o seu próprio rosto que aparecia e sim o de Rosa Vermelha, então ele entendeu que naquele momento ele estava revivendo a rotina de quando Rosa Vermelha havia sido a dona do cabaré, lá estava ela fazendo as contas de quanto iria pagar para cada uma das moças que trabalhavam na casa.
Após preencher seis folhas do caderno com nomes de muitas mulheres, Henrique de repente sentiu um tranco no corpo e quando olhou em volta estava novamente no meio daquela sala escura sem mesa ou cadeira, estava sozinho novamente.
Uma luz pálida com uma da lua aparecer e logo correu até lá, viu então surgir diante de si um fogão a lenha Fumegando e soltando fumaça, na boca principal uma grande panela com um líquido prateado que mais parecia metal derretido borbulhando mas que logo Ele identificou ser de fato mercúrio. Novamente um tranco foi tomado por todo o seu corpo e Henrique começou a se mover contra a própria vontade enquanto a sua boca se movia falando como se estivesse conversando com alguém:

— Eu já disse que vai demorar três semanas para fazer efeito, o homem vai morrer mas vai ser de forma lenta, assim não haverá perigo e ninguém desconfiar pois vão achar que foi tuberculose.

Ouviu um chiado como se alguém respondesse aquilo que dizia então ele caminhou para a direita e surgiu na sua frente uma pequena jaula feita com graveto e cipós, ele se abaixou para abrir a jaula e percebeu que as suas mãos eram ossudas e manchadas, mãos de velha, assim abriu a jaula e metendo a mão lá dentro encostou em algo que era gélido e quando puxou para fora Henrique se viu segurando uma serpente jibóia pesada com quase dois metros e meio, ele então sussurrou algo para jiboia que passou olhá-lo sem reação, ele levou a jiboia até o fogão e apertando o pescoço dela sobre a panela ordenou:

— Cuspa!

A jiboia escancarou a boca e regurgitou dentro do líquido Prateado que borbulhava um grande sapo morto que quando bateu na panela fez com que uma chama de fogo azul subisse sobre ela.
Ele virou as costas e caminhou alguns passos para trás até ficar diante de um toco de madeira onde em cima havia uma tina de água, enfiou as mãos na tina e as lavou enquanto o murmurava alguma ladainha em uma língua desconhecida, depois enfiou a cabeça na água esfregou o rosto e o colo com ela, em seguida apanhou uma toalha que estava pendurada em um prego no próprio toco e secou o rosto e todas as partes que havia molhado, ficou então algum tempo parado olhando a água da Tina que ainda estava agitada e quando a água se acalmou ele se colocou sobre ela e olhou para baixo, e no reflexo da água viu o rosto de Rosa Menina, então Henrique entendeu que ele estava revivendo ela que havia sido uma bruxa extremamente velha mas que através de sua magia conseguia muitas vezes manter a aparência de uma jovem adolescente.
Mais um tranco foi sentido e ele se viu novamente sozinho no meio da sala escura voltando a poder controlar o próprio corpo.

Enquanto Henrique vivia aquelas situações dentro da própria mente, do lado de fora o seu corpo transfigurado em forma feminina corria na velocidade de um raio pelo acostamento de uma estrada de terra.
A boca de Henrique se moveu e a voz de rosa vermelha saiu dela:
— Vocês estão vendo o que está acontecendo com o rapaz? Por que ele está revivendo nossas memórias?

Ele fechou a boca e quando abriu novamente foi a voz de Maria Quitéria que se fez ouvir através dele:
— Uma das coisas mais complicadas da Magia é o fato dela ser imprevisível.

Dessa vez foi a voz de Maria Padilha que saiu da boca de Henrique:
— Quitéria, você me garantiu que não haviam riscos! Me garantiu que o rapaz ficaria bem!

A voz de Quitéria soou baixa:
— Dizer eu disse, mas no caso minha cara eu simplesmente menti. Não faço nem ideia do que vai acontecer com o jovem Henrique no final da nossa jornada.

— Por tudo que há de mais sagrado, nos estamos corroendo a alma dele! — Disse Rosa Menina.
— Estamos sim. — respondeu Quitéria sem um pingo de emoção na voz.

🌹- III
Era um lugar calmo, um jardim beirando um rio de águas cristalinas, ao longe ouvia-se o som de uma cachoeira, mas por mais que a queda d'água fosse ouvida ela jamais pode ser alcançada.
Cigana Sarah já havia caminhado por todo aquele lugar mais de cem vezes e jamais chegava a canto algum além do próprio jardim beira rio.
— Há quanto tempo nós estamos aqui? — Ela perguntou mais uma vez a Narciso que estava deitado na grama de forma displicente.
— Já te disse várias vezes que o tempo nesses locais enfeitiçados passa de forma distinta, talvez nós estamos aqui ha apenas 5 minutos ou talvez já estamos neste lugar há mais de cinco mil anos, não tem como saber.

— Pare de ficar andando em círculos Sarah, está me dando nos nervos.— disse Rosa Cigana sentada sobre uma pedra enquanto mantinha as mãos esticadas com um fio vermelho arrancado da própria saia passado por entre os dedos, diante dela também sentada estava Rosa de Fogo que passava os dedos por aquele cordão esticado e as duas iam brincando de cama de gato.
— Eu não entendo de onde vocês tiraram tanta calma!— gritou Sarah com a voz aguda.
—Não estamos calmas, nós estamos esperando.— disse Rosa Kalunga um pouco distante delas sentada na margem do rio molhando os pés na água.
— Estão esperando o quê?— Narciso se mostrou curioso.
— Vocês dois provavelmente não sabem o que é estar dentro de uma falange — Rosa Kalunga apontou com o dedo indicador e médio para cigana e Narciso— até mesmo você cigana Sarah teve no passado uma grande aliança naquela jornada famosa da Roda das Princesas, mas depois disso você se manteve só. Já esse moleque aí pelo que contou estava adormecido no mundo dos mortos por milênios, já nós três aqui fazemos parte da falange das Rosas e temos certeza absoluta que nossas companheiras estão empenhadas em nos resgatar.

— Acreditam mesmo que elas vão conseguir?— Narciso perguntou.
— Não tenho nenhuma dúvida.— respondeu a Rosa Kalunga com um sorriso.

🌹- IV
Henrique de repente sentiu uma ardência na bochecha, levou a mão ao rosto confuso, mal imaginava que seu corpo estava correndo agora por dentro de uma mata fechada e que um galho fino de uma árvore baixa havia açoitado o seu rosto.
Ele ali preso dentro da mente ainda estava tendo visões atrás de visões, então mais uma vez se viu parado no centro da sala escura e ficou respirando ofegante sem entender o porquê, logo viu a sua esquerda muito perto de si surgir uma luz avermelhada, caminhou alguns passos até lá e de repente estava diante de um pequeno palco, um elevado de madeira de apenas sessenta centímetros de altura, o fundo do palco era repleto de candelabros cujo cada vela era revestida em uma cúpula de vidro vermelho fazendo a luz avermelhada resplandecer por todo o ambiente, então ele viu Maria Padilha subir em cima do palco e olhar para ele de forma desafiadora. Ela estava linda segurando um leque dourado na mão que brilhava reluzindo a luz toda vez que ela o movia. Henrique sentiu o corpo retesar e quando olhou para baixo viu uma saia armada, ele agora estava enfiado dentro de um vestido lilás e púrpura e tinha na mão direita um leque idêntico de Padilha. Pelo cheiro de perfume que sentiu em si mesmo ele percebeu que já não era ele, Henrique agora estava revivendo algo da vida de Maria Quitéria. Ele subiu no palco ficou lado a lado com Padilha e logo muitas moças vieram atrás.
Agora eram 12 mulheres em cima daquele pequeno palco, seis de um lado e seis do outro, as de vermelho mantinha uma pose com o leque erguido, as de roxo tinham uma pose diferente com uma mão na cintura e o leque fechado na outra.
Henrique piscou os olhos de repente o que viu diante de si não era mais a sala escura, ele estava dentro de um cabaré com todas as mesas lotadas de homens vestidos com roupas de época, todos olhando para o palco com expectativa.
Sentiu sua testa se mover como se mexesse a sobrancelhas, estava nitidamente fazendo um sinal para alguém, então viu no fundo do salão aquela grande escada que dava para andar de cima, entre os degraus havia um patamar de mais ou menos um metro onde estava Maria Mulambo segurando um bumbo e Sete Saias com um violoncelo.

Entendendo o sinal de Quitéria Sete Saias dedilhou as cordas do violão começando o som, a posição estratégica delas sobre a escada fazia com que a música se espalhasse por todo o ambiente, então no primeiro compasso Mulambo bateu o bumbo, seguia-se alguns acordes muito românticos do violoncelo eu logo em seguida um tum tum tum do tambor.
Henrique sentiu seu corpo se mover e percebeu que junto com ele todas as moças do palco dançavam em uma mesma coreografia, e assim de repente sentiu os olhos ardendo um pouco devido um grande flash de luz que o atingiu na face, do outro lado do salão em uma direção oposta escada estava aquela deslumbrante mulher chamada Dama da Noite manejando um tipo de holofote primitivo, era uma caixa espelhada com quatro velas dentro e que quando era dirigida para algum lugar emitia um raio de luz intenso, dessa forma a luz focava hora em Quitéria ora em Padilha e pareciam ser as protagonistas da dança entre todas as músicas do palco.
No ritmo da música A plateia começou a aplaudir, o som de "tcha tcha tcha" das palmas era tão alto quanto o do bumbo ou o das cordas, e assim Henrique sentiu o corpo girar e percebeu que a saia abriu no ar, e as moças dançavam de modo idêntico em uma sincronia admirável.
A dança prosseguiu de forma muito bonita e atraente, as moças ergueram um leque diante do rosto e com a outra mão figiam o pentear os cabelos fazendo do leque um tipo de espelho, depois giravam o corpo fazendo a saia rodar e se misturavam entre si em cima do palco de forma bagunçada para logo em seguida tomarem uma nova posição organizada e continuarem em uma coreografia com os Leques de forma muito e ao mesmo tempo delicada.
Ele sentia seu peito subindo e descendo arfando pela intensidade da dança misturada com o peso de Todas aquelas anáguas e o apertado exagerado do espartilho, então após longos minutos de coreografia a animação dos clientes começava a de cair, e nesse momento todas as 10 moças logo atrás de Padilha e Quitéria se deixaram cair no chão como se tivessem sido atingidas por uma saraivada de flechas, nisto Henrique entendeu que a coreografia retratava uma guerra. Em vez de olhar para o público se viraram uma para a outra, abriram seus leques como se fossem lâminas então quando bateu o tambor as luzes em cima do palco ergueram seus pés sobre a saia e pisaram no chão com toda força fazendo o estrondo ser tão alto que alguns homens saltaram de suas cadeiras surpresos. Elas então começavam a girar entre si trocando de posição e sempre que o tambor ia bater batiam o salto de seu sapatos no assoalho do oalco para o estrondo ser maior, girávamos leques sobre a cabeça em volta do corpo então batiam seus leques um contra os outros imitando uma briga, um duelo. As duas ali eram dançarinas fenomenais sua movimentação intensa feito com que muitos se aproximassem do palco batendo palmas de forma mais alta e desritimada mas muito animada querendo ver no que a dança iria culminar.

A coreografia começava a ficar mais intensa e muito mais violenta, em alguns momentos elas fechavam os seus leques e batiam as hastes umas como as outras agora como se fossem espadas , então surgindo com um salto logo atrás das Cortinas vinha rosa vermelha portando dois leques nas mãos, ao contrário de todas as moças em cima do palco ela não estava usando vestido nem espartilho e sim apenas uma camisola transparente o que fez os clientes começarem a gritar seu nome, Pelo visto naquela dança ela fazia papel de uma terceira força que iria sobrepujar ambas. Rosa vermelha dançava com os leques até que bateu o leque direito na mão de Maria Padilha fazendo o dela voar longe e depois bateu o esquerdo nas mãos de Maria Quitéria fazendo dela cair no chão então Padilha e Quitéria se ajoelharam aos pés de rosa vermelha e agarraram em suas pernas enquanto ela erguia os dois Leques acima da cabeça sendo iluminada pelo facho de luz intenso de Dama da Noite colocou sobre ela, então Henrique entendeu que naquela dança tanto ele estava imitando os passos de Quitéria quanto Padilha simbolizavam forças de guerra e Rosa Vermelha vinha simbolizando Afrodite, a deusa do amor, e a única força que pode vencer a violência é a arte de amar.
A plateia foi a loucura em aplausos intensos
Então Henrique sentiu o tranco no corpo e logo estava sozinho no meio da sala escura novamente.

— Meu Deus o que está acontecendo...— ele disse em voz alta e logo cobriu a boca com as duas mãos quando percebeu que a voz que saiu dela era fina e aguda.
Henrique pigarreou e tentou dizer mais algumas palavras para ver se o seu tom de voz voltava ao normal, mas não voltou. Ele então olhou para as próprias mãos e viu que seus dedos estavam finos e alongados e não quadrados e curtos como eram antes, suas mãos agora pareciam mãos de mulher.

🌹- V
Após uma longa corrida o corpo de Henrique possuído pelas entidades chegou diante de uma grande árvore no meio da floresta, uma seringueira cujo da raiz brotavam dois troncos que se entrelaçavam formando uma espécie de vão entre eles, e aquele era inconfundivamente o portal informado pela deusa Jaci.

Em cada região do mundo existiam milhares de pequenos portais que levavam ao mundo espiritual ou mesmo a locais terrenos mas dominados por divindades, para adentrá-los o indivíduo devia apenas dizer a senha e seria direcionado para o local indicado. As sete entidades ali dentro de Henrique deram as mãos e o corpo dele se moveu ficando diante do portal. A boca se abriu e ele murmurou algo, uma palavra secreta relacionada ao segredos de Oxum que apenas outra deusa saberia, se já se não tivesse revelado não haveria nenhuma condição deles chegarem até lá. Mas foi só pronunciar a palavra e o vão entre os troncos da árvore se iluminou, então o corpo de Henrique o atravessou mas em vez de chegar do outro lado da Mata as identidades sentiram um arrepio e logo ao olhar em volta através dos olhos do rapaz se viram com água até a cintura pois estavam dentro de um rio de águas cristalinas
Elas finalmente haviam chego ao território de Oxum.


📚 Glossário:
1. Ábaco: um artefato de madeira composto de várias hastes nas quais eram posicionadas diversas peças móveis, o movimento de cada peça e a posição indicavam um cálculo matemático. O ábaco é o ancestral da calculadora moderna.
2. Cama de gato: brincadeira de origem indígena, nela uma pessoa transpassa um cordão entre os dedos das duas mãos juntas e uma segunda pessoa deve vir e remover esses cordões de modo há também entrelaçar os em seus próprios dedos de uma maneira diferente e assim sucessivamente as pessoas vão passando o cordão de mão em mão cada uma formando estruturas diferentes com o cordão esticado.


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